quarta-feira, 3 de outubro de 2012

ESSE BEIJO SEM SEU CORAÇÃO É UMA PEDRA NA ÁGUA.

Te contar que me faz chorar como criança não é a solução, dizer que os passarinhos da varanda que estão aprendendo a voar me parecem tristonhos não é a saída, confidenciar que o silêncio é o melhor amigo das madrugadas não possui muita razão. Ainda assim escrevo e revelo pelo que velo e faço vigília. Essa melancolia está toda aqui dentro, é o que gritam meus olhos, minhas mãos e meu corpo fraco. A
 esperança ficou no passado e deixou rastro de paz entre os lençóis, mas a semana é outra, o dia é outro e meu corpo continua o mesmo, tão puro, imaculado e sedento de algo que o arrebente. Não é suicídio, apenas um desejo de sentir a dor na carne para ter a certeza de viver. Do sangue escorrer. Das unhas cravarem. Do choro cair, pingar, perfurar, rolar, rolar, rolar para que eu não me enrole tanto como estou me enrolando agora. Esses fingimentos são demais e eu não caibo nesses espaços pequeninos, nessas letras miudinhas, nesses olhares de compaixão, pena ou incompreensão. Eu não preciso de consolo nos ombros, eu preciso de um chute, de um cuspe, de um murro ou algo que finalmente me desperte no susto, na queda, na dor. Ou então um beijo muito manso na nuca, um abraço muito cuidadoso pelas costas, um sopro muito delicado de ar nos pulmões, de um carinho que eu sei que você muito tem. As coisas são tão difíceis, rapaz, e eu só queria poder fugir um pouco ou que me puxassem para uma fuga. “Movam-se, meus pés!”, eu digo sem dar um passo, sem dançar um samba, sem curtir um jazz. “Abra-se, minha boca!”, eu ordeno com os lábios trancados e a chave da fechadura perdida em outra garganta. Não sei, não sou, ou sou e sei, mas isso não tem sentido para aqueles que não têm sentido o mundo do mesmo modo que eu. Preciso fechar os olhos para enxergar, e você também.

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